quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Manoel de Barros, a sabedoria da criança ou do louco


Quando Carlos Drummond de Andrade era considerado o maior poeta brasileiro, enquanto outros diziam que João Cabral de Melo Neto era, se não o maior, pelo menos o mais importante, o próprio Drummond disse que o maior poeta brasileiro era Manoel de Barros. Muitos torceriam o nariz para essa afirmação. O próprio Manoel de Barros disse que o nosso melhor poeta era João Cabral. E diz da Geração de 45, a que ele e João Cabral pertencem cronologicamente: “Achava e acho ainda que não é hora de reconstrução. Sou mais a palavra arrombada a ponto de escombro. Sou mais a palavra a ponto de entulho ou traste.” Tem consciência crítica, conhece o que é um poema, objeto fechado em si, isto é, a poesia de João Cabral, e sabe que a sua poesia é feita de restos, restolhos. Ele como que se compraz em brincar com as palavras, virá-las e revirá-las nos dedos: “Não tenho outro gosto maior do que descobrir para algumas palavras relações dessuetas e até anômalas.”

Cita Guimarães Rosa: “A poesia nasce de modificações das realidades lingüísticas.” Ou Leo Spitzer: “Todo desvio nas normas da linguagem produz poesia”. Mas vai muito mais além: “Instala-se um agramaticalidade quase insana, que empoema o sentido das palavras.” A chave está mais no termo “insana” do que apenas em “agramaticalidade”. E vai repetindo, não só por repetir, mas, nessas variações de uma mesma nota, para enfatizar: “O sentido normal das palavras não faz bem ao poema./ Há que se dar um gosto incasto aos termos./ Haver com eles um relacionamento voluptuoso./ Talvez corrompê-los até a quimera./ Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los. / Não existir rei nem regência./ Uma certa luxúria com as palavras convém.”

Prestemos atenção: “escurecer”, “incasto”. Propõe uma volta à infância da palavra, numa visão primordial do mundo: “Um novo estágio seria que os entes já transformados falassem um dialeto coisal, larval, pedral etc. / Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural – / Que os poetas aprenderiam – desde que voltassem às crianças que foram / Às rãs que foram / Às pedras que foram./ Uma certa luxúria com as palavras convém.”

Assim se justifica, se fosse preciso se justificar: “O que não sei fazer desconto nas palavras. / (...) Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos. / Outras de palavras. / Poetas e tontos se compões com palavras.” Sabe que o poema é uma forma, um objeto, mas em estado de alucinação: “Designa também a armação de objetos lúdicos com emprego de palavras imagens cores sons etc. geralmente feitos por crianças pessoas esquisitas loucos e bêbados.” São objetos lúdicos, mas com os sentidos fora do normal, desregrados.

Sempre valoriza a luxúria da palavra, a mais abjeta: “Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na sarjeta. / Sou mais a palavra ao ponto de entulho.” É a busca da pureza, da infância do verbo: “Nenhuma voz adquire pureza se não comer na espurcícia. Quem come, pois, do podre, se alimpa. Isso diz o Livro.”

A leitura de Manoel de Barros é uma descoberta renovada. As infinitas possibilidades da poesia, que nasce como quem não quer nada, de onde menos se espera. É a poesia pura, de quem vê o mundo pela primeira vez, como a criança ou o louco: “Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina. / No osso da fala dos loucos tem lírios.”

Sobre a obra

Crônica-síntese de um ensaio sobre Manoel de Barros.
Todas as citações são tiradas de "Gramárica Expositiva do Chão (Poesia quase toda)", Editora Civilização Brasileira, Rio, 1990, de Manoel de Barros.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

10 Mandamentos para carnívoros que convivem com vegetarianos


Texto de Alison Green retirado da internet

Tradução: Mirian M. Costa



Concluí, após cuidadosa análise, que comer carne era incompatível com meus valores, apesar de adorar carne e não gostar muito de verduras. Eu tinha certeza que minhas papilas gustativas iam se rebelar, talvez manter um ou dois brotos de feijão como reféns em minha boca até que eu pagasse o resgate com um hambúrguer ou um pedacinho de bacon.


Felizmente, não aconteceu bem como eu esperava, meu maior problema como vegetariana não foi a comida — que descobri ser deliciosa e tão satisfatória como a carne — mas as atitudes desconcertantes de minha família e dos amigos. Outros vegetarianos fazem as mesmas reclamações: os olhares estranhos, as perguntas tolas, os interrogatórios pouco amistosos. Parece que os vegetarianos —12 milhões só nos Estados Unidos, e aumentando a cada dia — são uma minoria na verdade tristemente mal compreendida.

Assim, eu bolei dez simples mandamentos para os carnívoros usarem em seus contatos com os vegetarianos:

1- Não pense que os vegetarianos são espartanos que se alimentam de cenouras cruas e brotos de feijão.


A pergunta que mais ouço é "O que você come?"

Esta me deixa desconcertada; o que pode responder uma pessoa que tem uma dieta razoavelmente variada? Eu como espaguete, refogados, humus, cozidos, sorvete de framboesa, minestrone, saladas, burritos de feijão, bolo de gengibre, lentilha, lasanha, espetinhos de tofu, waffles, hambúrgueres vegetarianos, alcachofras, tacos, bagels, arroz com açafrão, musselina de limão, risoto de cogumelos silvestres — o que você come?

2- Aprenda um pouco de biologia.


Eu ainda não sei bem o que fazer com pessoas que são inteligentes sob outros aspectos mas acham que uma galinha não é um animal. Só para constar, vegetarianismo significa não consumir carne vermelha, aves, ou peixe — nada que tenha um rosto. Já perdi a conta das vezes em que garçons sugeriram um prato de frutos do mar como entrada "vegetariana".


3- Principalmente se as pessoas forem vegetarianas por razões éticas, não julgue que elas não se importarão com "só um pouquinho" de carne em sua refeição.

Você aceitaria "só um pouquinho" de seu gato, ou "um bocadinho" do Tio Jim em sua sopa?

4- Deixe de fazer lobby para a indústria da carne.

Parece que os carnívoros pensam que os vegetarianos são como as pessoas que fazem regime e que nós queremos trapacear de vez em quando.

Meu pai tem certeza de que se ele conseguir me convencer que sua carne enlatada é uma delícia, eu vou ceder e comê-la. Amigos tentam me fazer experimentar "só um pedacinho" de qualquer prato com carne que eles estejam comendo, partindo da premissa de que é tão bom que é impossível que eu recuse. Há vezes em que penso que os carnívoros aprenderam a fazer pressão com os caras malvados dos filmes anti-drogas que nós assistíamos no ginásio. Ouçam bem: não precisam insistir dizendo que é "ótimo", nós não vamos comer.

5- Quando um vegetariano fica doente, não diga a ele ou a ela que está desnutrido.

Dos comentários que ouvi quando tive gripe, vocês pensariam que os carnívoros nunca ficam doentes. Quando eu fico doente, tem sempre alguém esperando para me dizer que é por causa da minha dieta. Na verdade, da mesma forma que existem carnívoros saudáveis e doentes, há vegetarianos saudáveis e doentes. (Por falar nisso, estudos demonstraram que os vegetarianos tem o sistema imunológico mais resistente do que os carnívoros.)

6-Quando estiverem em um restaurante com um vegetariano, tenham paciência -- comer fora pode ser um desafio mesmo para o mais consumado vegetariano.


Apesar da aceitação em voga da dieta à base de vegetais, a maior parte dos cardápios de restaurantes ainda está repleta de produtos animais.

Alguns restaurantes parecem não ter nada a não ser carne em seus cardápios; mesmo as saladas têm ovos ou frango! Não reclamem se seus esforços para determinar os ingredientes exatos do minestrone parecerem paranóia; a experiência nos ensinou que esses interrogatórios à mesa são necessários. Após anos interrogando garçons e garçonetes, descobri que itens descritos como vegetarianos muitas vezes contém caldo de galinha, banha, ovos, ou outros ingredientes animais.

7- Não façam caretas para nossos alimentos.

Antes de torcerem o nariz para meu cachorro-quente de soja ou para o tofu, pensem naquilo que vocês estão comendo. Só porque se alimentar de animais é amplamente aceito, isso não significa que não seja uma grosseria.

8- Percebam que nós provavelmente já ouvimos isso antes.

Uma das coisas mais engraçadas sobre ser veg é a pessoa que tem certeza de ter o argumento que vai mudar minha maneira de pensar. Quase que invariavelmente vêem como uma destas jóias:

(a) "Animais comem outros animais, portanto porque os seres humanos não o fariam?" (Resposta: A maior parte dos animais que mata para se alimentar não sobreviveria se não o fizesse. Esse obviamente não é o caso com os seres humanos. E desde quando usamos os animais como exemplo de comportamento?)

(b) "Nossos ancestrais comiam carne." (Resposta: Talvez — mas eles também moravam em cavernas, conversavam aos grunhidos, e tinham escolhas muito limitadas de estilo de vida. Supõe-se que nós já tenhamos evoluído desde aquela época.)

9- Apesar da opinião popular, vocês não têm o direito de esperar que os vegetarianos transijam convicções pessoais em nome da "cortesia".

Pessoas que nunca sonhariam em convidar um alcoólatra recuperado para experimentar sua vodca preferida, ou em querer que alguém que levasse uma vida kosher aceitasse um pouco de bacon, acham perfeitamente razoável esperar que eu coma o bolo de carne da tia Maria porque eu o adorava quando criança e ela ficaria muito ofendida se eu não aceitasse um pouco agora.

10-Parem de dizer que os seres humanos "precisam" comer carne;


Nós somos a prova viva de que não precisam.

Pessoas que sob outros aspectos respeitam minha capacidade de me cuidar recusam-se a acreditar que não tomei a decisão de me tornar vegetariana impulsivamente. Eu fiz muita pesquisa sobre o vegetarianismo — provavelmente mais do que vocês fizeram sobre dieta e nutrição — e estou confiante da escolha que fiz.

Vocês conhecem os estudos que demonstram que os carnívoros tem duas vezes mais possibilidade de morrer de problemas cardíacos, 60% mais chance de morrer de câncer e 30% a mais de possibilidade de morrer de outras doenças? Eu não estaria comendo desta maneira se uma extensa pesquisa não tivesse me convencido de que o vegetarianismo é mais saudável e mais ético do que comer carne; uma pergunta mais pertinente seria se você pode justificar a sua dieta.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Canto Quinto



"É Hilda, agora é assim...
Materializo suas palavras ébrias aos ouvidos da minha lucidez."
Shana Horta


Eu nem soube falar do amor nos homens.
(Amor feito de júbilo aparente)
Nem soube replantar no que era terra
Uma mesma semente.
Tive no peito o mantra mais secreto
E não pude vibrá-lo, alento, lira
Corda divina no seu veio certo.

Elaborei em vão todos meus sonhos.
E súbito me tomas e me ordenas
A solidão mais funda:
Estes cantos agora, alguns poemas
Um amor tão perfeito e indizível
Porque não é tumulto nem tormento.
(E se o homem na carne foi punido
O verbo diz melhor do sofrimento).

Que nome te darei se em mim te fazes?
Se o teu batismo é o meu e eu só te soube
Quando soube de mim?

Hilda Hilst

Imagem by:Roberto Manetta

sábado, 29 de outubro de 2011

Upadesa Saram -A Essência da Instrução Espiritual


Existe na Índia uma velha lenda a respeito de um grupo de Rixis (vide glossário no final) que durante certo tempo viveram juntos num bosque, praticando rituais através dos quais adquiriram poderes sobrenaturais. Com base nesses poderes, pretendiam atingir a libertação espiritual. Na realidade, estavam equivocados, pois a ação (rituais) só pode dar como resultado a própria ação e não a sua cessação; os ritos podem despertar poderes, mas não a paz da libertação espiritual que se acha além dos ritos, poderes a todas as formas de atividade. O Deus Shiva ao perceber sua intenção resolveu convencê-los do erro em que incorriam e, para tanto, manifestou-se diante deles sob a forma de um Sadhu Errante (vide glossário). Juntamente com ele apareceu o Deus Vishnu sob a aparência de uma formosa dama. De pronto os Rixis apaixonaram-se pela moça, o que alterou seu equilíbrio, afetando de modo adverso seus ritos e poderes. Além disso, todas as suas esposas que com eles viviam na floresta se enamoraram do estranho Sadhu. Irritados com o fato, os Rixis, mediante ritos mágicos, conjuraram um elefante e um tigre, enviando-os contra o Sadhu. Este, entretanto, matou-os com facilidade e a seguir usou a pele do elefante como vestimenta e a do tigre como manto. Compreenderam os Rixis que se achavam diante de alguém mais poderoso que eles e assim curvaram-se reverentemente, pedindo-lhe para que os instruísse. Assim, Shiva sob a forma de um Sadhu explicou-lhes que não é mediante a ação e sim pela renúncia a ação que se alcança a libertação.
O poeta Muraganar estava escrevendo esta fábula em verso Tamil, mas ao chegar no ponto da instrução dada por Shiva aos Rixis, sentiu-se incapaz de fazê-lo e pediu a Bhagavan, que era Shiva encarnado, para que escrevesse por ele. Atendendo a Muraganar, Bhagavan compôs trinta versos em Tamil expondo a instrução. Este poema é conhecido como Upadesa-Vundiyar. Sri Ramana mais tarde traduziu-o para o sânscrito, Telegu e Malayalam, com o título de Upadesa-saram.
Nos trinta versos que constituem a Upadesa Saram, Sri Ramana dá a quinta essência da Vedanta. O valor extraordinário deste ensinamento é que ele não é o resultado formal do estudo do texto, mas brotou da autoexperiência de Sri Ramana, proporcionando assim, uma independente e contemporânea confirmação da verdade plena da Vedanta.
Estes versos eram cantados diariamente perante Bhagavan Sri Ramana Maharshi, juntamente com os Vedas, e, continuam a ser cantados diariamente perante seu túmulo. Portanto, são tratados como uma Santa Escritura. Referem-se às várias sendas da liberação, graduando-as em ordem de eficiência e excelência, e mostrando que a melhor é a autoinvestigação. Começa com a crítica da falsa visão do karma, o reflexo do curso das ações passadas, como sendo tudo, não havendo necessidade de postular a divindade atrás da cena.
Foram traduzidos para o inglês por Narasimha Swami, e do inglês para o português pelo Grupo Arunachala do Rio de Janeiro. Nós aqui os transcrevemos por ser a própria essência da instrução do Mestre.

1 - A ação (karma) produz frutos, pois assim ordena o Criador mas, é Deus? Não pode ser: pois não é sensível.
Nota: Maharshi usa a palavra karma apenas para significar atos determinados, sancionados ou proibidos pelas escrituras. A doutrina do karma é usada na filosofia hindu para explicar as desigualdades encontradas na sociedade e o espetáculo comum e estranho do homem bom sofrendo dores e tristezas, aparentemente inexplicáveis, enquanto os maus gozam prazeres e felicidade, aparentemente imerecidas. Dentro de limites definidos, serve a doutrina do karma, mas a tentativa de limitar a onipotência de Deus e de apresentar o karma como sendo superior a Deus não é válida. O Maharshi censura essa ilusão: “Karma é um dos estados ou atributos da criatura de Deus, e, consequentemente, karma é criado por Deus. É, pois, ridículo atribuir superioridade da criação em relação ao Criador.”
2 - Os resultados do karma passam, mas deixam sementes que lançam o agente num oceano de ação. A ação, portanto, não oferece libertação.
Nota: Nossos atos e atitudes tornam-se hábitos que prendem o agente com grilhões de ferro. Os atos nascidos do desejo tendem a perpetuar-se não apenas de dia para dia e ano para ano, mas também de vida para vida, pois o balanço de seus frutos, deixando sempre saldo, permanece na morte do corpo físico e nos força a tomar novo nascimento.
3 - Mas os atos executados sem apego e com espírito de serviço a Deus, limpam a mente e apontam o caminho para a libertação.
Nota: No homem estão profundamente arraigados os desejos e tendências para buscar suas recompensas. Por ambas as razões, a atividade e o amor ou o desejo de alguma coisa são inevitáveis, o aspirante deve voltar seu amor para Deus, servindo-O tanto diretamente como através de suas criaturas. O efeito de tal atividade será o da diminuição gradual e finalmente o desaparecimento do egoísmo, conduzindo-nos para Deus.
4 - Isso é certo. “Puja”, “Japa” e “Dhyana” são executados principalmente com o corpo, com a voz e com a mente e sobrepujam-se entre si na ordem acima.
Nota: “Puja” - cerimonial de adoração acompanhado de atividade.
“Japa” - repetição do nome de Deus ou de mantras sagrados.
“Dhyana” - meditação.
5 - Este universo óctuplo pode considerar-se como manifestação de Deus e qualquer culto que nele se cumpra é excelente como adoração a Ele.
Nota: Óctuplo porque está composto pelos cinco elementos mais o sol, a lua e o ser individual. Os devotos fervorosos pensam, e devem pensar, ao executarem tal adoração, que Deus é imponente em todo o universo e em cada parte deste. Para que a adoração seja real, de forma a alcançar Deus, deve haver o sentimento da presença de Deus. A concentração intensa ou absorção assimila e faz a fusão, isto é, mergulha os dois num só. E o objetivo da adoração é mergulhar na Bem-Aventurança única.
6 - A repetição, em voz alta, de Seu Nome ou Mantra é melhor do que o louvor. A seguir vem a pronúncia sussurrada. Melhor ainda é a repetição dentro da mente – e isso é a meditação acima referida.
Nota: A repetição do Seu nome ou mantra auxilia mais a concentração do que prestar louvores. A medida que a concentração aumenta, a voz, gradualmente, mergulha no interior e o silêncio predomina.
7 - Melhor do que a interrupção do pensamento (meditação) é o seu fluxo contínuo, como o fluir do óleo ou da corrente contínua.
8 - A atitude mais elevada “Eu sou Ele” é preferível à atitude “ele é o ego”.
Nota: O som sânscrito que significa “Eu sou Ele” é usado para denotar a unidade e identidade daquilo que é designado pela primeira pessoa Eu e pela terceira Ele. Assim, este é o mantra chave, a meditação constante que auxiliará o devoto a identificar-se com a alma universal ou Brahman.
9 - Permanecer no Ser Real, transcender todos os pensamentos, pela devoção intensa, é a própria essência da devoção suprema.
Nota: Nestes dois versos, o Maharshi mostra como começamos a devoção com o sentimento de diferença entre nós e Deus, depois perdemos a diferença pela intensidade do estado e chegamos a não-diferença. Isto é sabedoria, e é a essência da devoção mais elevada.
10 - “Absorção na fonte”, o “cerne” da existência ou “coração” é o que ensinam os caminhos do Karma (Ação), de Bhakti (Devoção), de Yoga (União) e de Jnana (Sabedoria).
Nota: A mente devocional do Bhakta (devoto) encontra em Deus a fonte exata de si mesma e de todos e esforça-se para ser absorvida completamente n’Ele. O Jnani executa a investigação da fonte e da natureza em si mesmo e de todas as outras coisas do universo. E, chegando ao Supremo, busca realizar-se perdendo sua individualidade n’Aquele. O yogui volta-se para o sadhana (exercício), que capacita a mente a alcançar a firmeza e absorção em Atman – Brahman. O partidário do caminho do karma almeja, também essa absorção e se lança a vários atos que o levam ao alvo. Todos esses caminhos prescrevem a fórmula – “Buscai e descobri a origem de vós mesmos, e sede absorvidos nela.” Este termo – “Fonte” denota a Suprema realidade, Brahman, donde surge a existência de tudo. Para esse termo Maharshi usa a palavra “Hridayam” ou seja Coração.
11 - Como os pássaros são apanhados com redes, assim ao prender a respiração, a mente é retraída e absorvida. A respiração regulada é estratagema para efetuar a absorção.
Nota: Pranayama (controle da respiração) assegura, realmente a calma temporária da mente.
12 - Pois a mente e a respiração vital (prana) expressos em pensamento e ação, divergem e se dividem, porém surgem da mesma raiz.
Nota: O aspirante não deveria contentar-se como o “pranayama” que tranquiliza a mente apenas enquanto a respiração é retida, mas deveria prosseguir até “matá-la”. E isto é conseguido pela perseverança na concentração sobre o Supremo.
13 - A absorção tem duas formas, isto é “Laya” e “Nasha”. O que é absorvido em “Laya” revive, pois “Laya” é absorção temporária; “Nasha” é permanente.
Nota: “Momonasha” isto é, literalmente, a morte da mente, não significa tornar-se insensível, e sim a perda da forma atual da mente, que é limitada com sua visão obstruída e embaraçada, que impede que seja ela percebida como o próprio Atman e força-a a identificar-se com o corpo. A perda dessa forma de mente é realmente uma aquisição, pois significa a transformação da mente finita em consciência pura, o Atman ou Brahman que tudo envolve sem nada deixar fora de si.
14 - Quando a mente for absorvida pelo refreamento da respiração então ela morrerá, isto é, sua forma perecerá, se for fixada num só ponto.
Nota: Este “ponto” é a concentração no Supremo.
15 - O grande Yogui cuja mente está extinta e que descansa em Brahman, não tem karma, pois que atingiu a sua verdadeira natureza, Brahman.
Nota: O sábio que submeteu sua vontade ao Supremo, diz “Eu” não eu, mas o “Supremo em mim”. Ele está seguro e feliz no seu íntimo, todavia, distante do corpo, perfeitamente tranquilo e imune às suas tendências e consequentes atividades – ciente de que ele não é o agente. Tal sábio é considerado como aquele que perdeu seu ego ou mente, e está isento de laços karmicos.
16 - Quando a mente se afasta dos objetos externos dos sentidos se embrenha na introspecção, e contempla Sua própria forma resplandecente, isso é a verdadeira sabedoria.
Nota: Conhecimento não deve ser confundido com sabedoria. Muita instrução é fadiga para o corpo e pode, pela distração, impedir a paz da mente. A instrução é o estudo das coisas fora de nós e o homem pode estudar o mundo todo e até ganhá-lo, mas de que serviria se ele não se conhecer a si mesmo, para poder dirigir-se. Mesmo para adquirir o conhecimento real do mundo deveremos conhecer-nos a nós mesmos. O autoconhecimento é o dever principal e o interesse do homem é a sabedoria.
17 - Quando a mente investiga incessantemente sua própria natureza, descobre que não há mente. Este é o caminho direto para todos.
18 - A mente é apenas pensamentos. O pensamento “eu” é a raiz de todos os outros pensamentos. Portanto, a mente é somente o pensamento “eu”.
Nota: O pensamento “eu” é também conhecido como ego, o sentimento de nossa personalidade. “Pensamentos” significam fenômenos mentais. Quando surge um pensamento, buscai sua raiz perguntando: “A quem surgiu esse pensamento? Quem pensa isto?” A resposta é Eu a pessoa. Não há pensamento sem um pensador. Assim o pensamento-pessoa “eu” é a raiz do pensamento.
19 - Donde surge este ego? Buscai isto no vosso íntimo e esse ego desaparece. Esta é a busca da sabedoria.
Nota: A pergunta seguinte que deverá ser feita a vós mesmos é: “Quem é esse eu?” Que espécie de entidade é ele? Donde surge ele? Pela introspecção, tentai ver como e onde esse pensamento “eu” começa. O resultado é que o que aparecia anteriormente como indivíduo, o distinto “eu”, que entretinha o pensamento, desaparece, não é mais visto.
20 - Onde o ego desaparece, aparece um “Eu”. “Eu” por si mesmo. Este é o infinito.
Nota: Existirá um vácuo em nós após a perda do sentimento de personalidade individual? Não. O que resta é o Uno super sensível, que sustenta essa aparência “Eu”, e representa não apenas um indivíduo, mas todos. Daí ser designado pela expressão “Eu-Eu”, que denota o mergulho ou absorção do indivíduo no Universal. E isso é aniquilamento? Não.
“A gota de orvalho escorrega até o mar brilhante.”
“A pequena fagulha se reúne à chama eterna.”
21 - Este é o verdadeiro valor do termo “Eu”. Pois não cessamos de existir nem no sono profundo, no qual não há “eu” desperto.
Nota: Os Upanishads afirmam que o estado de sono profundo está ainda muito próximo da ignorância – embora esse estado seja o de maior felicidade entre os três (os três estados são o de vigília, o de sono, com sonhos e o sono profundo – sem sonhos) e esteja mais próximo da autorrealização. Na autorrealização tudo é consciência pura, e a ignorância não pode deter-se ali. Maharshi assim resume tal assertiva: “A realidade está oculta atrás do ‘Eu’, isto é, dos três estados, e este ‘Eu’ de consciência pura é perfeito”.
22 - Mente, sentidos, corpo, a respiração vital (prana) e a ignorância, são todos insensíveis e não são o Real. Eu sou o Real. Eu não sou esses envoltórios.
Nota: Se sinto que sou e que sou consciente, o “Eu” não pode ser ignorância ou algo obscuro. Quem sou eu então? Eu sou o que fica depois de serem removidos todos esses envoltórios. Eu sou aquilo que É Sat (Ser, Existência), Eu sou aquilo que é o consciente, Chit (Consciência). Eu sou além de todos os prazeres ou dores, Eu sou Ananda (felicidade).
23 - Como não há um segundo Ser que conheça Isso que existe, “Isso que existe” é consciente. Nós somos Isso.
24 - Criaturas e criador existem. São um no Ser. A diferença está no grau de conhecimento (consciência) e de outros atributos.
25 - Quando a criatura se vê sem atributos, isso é conhecimento do Criador, pois o Criador aparece como idêntico ao Eu.
26 - Conhecer o Eu é ser o Eu, pois não há dois Eu separados. Esse estado é “Thanmaya Nishta” (viver como o Ser).
Nota: “Thanmaya Nishta!” Significa literalmente “Viver como Aquele” isto é, Brahman ou o Ser Real.
27 - Esse é o “Conhecimento” real e transcende tanto conhecimento como ignorância. Lá não existe objeto para ser conhecido.
Nota: No estado de realização a unidade prevalece. A ideia “eu sou isto” ou “sou ignorante disto” não pode entrar ali. Não há segunda pessoa para conhecer essa realização.
28 - Quando se conhece a nossa verdadeira natureza então existe o Ser sem começo nem fim. Esta é a ininterrupta Consciência – Bem-aventurança.
Nota: Nesse estado não há diferenças e daí não haver começo nem fim. O que é realizado então pode ser descrito como existência (Sat), consciência (Chit), felicidade (Ananda).
29 – Permanecer nesse estado de Bem-aventurança suprema e deixar para trás todos os pensamentos que causam escravidão ou libertação é viver a serviço do Supremo.
Nota: Qualquer adoração ou serviço, daí em diante, será sem ego, pois a vontade é absorvida em Deus ou Brahman.
30 – A realização D’Aquele que subsiste quando todos os traços do ego desaparecerem, é bom “tapas”. Assim canta Ramana, o Eu de todos.
Nota: Para o observador superficial o “Jnani” (sábio) pode não parecer um “Tapasvi” (aquele que pratica “tapas” – penitência, disciplinas), mas o fato é que ele é o maior, pois seus “tapas”, sendo a percepção espontânea do Ser, é constante, independente do menor traço de esforço. O processo de nos afastarmos do ego envolve o sacrifício de tudo.

Glossário
BRAHMAN - A divindade (Deus). Apresenta-se sob duplo aspecto Brahman-Nir-Guna, isto é, Deus sem atributos, impessoal (O Absoluto Ser) e Brahman-Saguna, isto é, Deus com atributos ou Deus como pessoa sagrada (O Pai).
SADHU – Asceta que renuncia ao mundo em busca da libertação espiritual.
RIXI – Nome dado a indivíduos que atingiram a realização espiritual. Na lenda em questão os rixis não eram verdadeiros rixis, pois não haviam alcançado o nível espiritual que fizesse jus ao nome.
SHIVA – Aspecto destruidor da Trindade Hindu. Na verdade o aspecto do Divino que destrói a ilusão (Maya) do ser que se identifica com o seu ego.
VISHNU – Aspecto conservador da aludida trindade, na mitologia Hindu.

Fonte: http://www.aluznocaminho.org.br/novo/bhagavan-sri-ramana-maharshi/o-ensinamento/upadesa-saram-essencia-da-instrucao-espiritual

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

* O Barro(s) em Manoel


Gostaria muito que as pessoas tivessem o mesmo pensamento de Manoel de Barros quando diz: "O homem que deixou a vida por se sentir um esgoto, acho mais importante do que uma Usina Nuclear."
Hoje estou me sentindo um “esgoto", e talvez por me sentir assim, posso entender esse dialeto "manoelês" - "Aliás, o cu de uma formiga é também muito mais importante do que uma Usina Nuclear." - Sábias palavras Manuelito! - O senhor tem lindamente a graça de plantar os sentimentos nas palavras. É claro que nem sempre esses sentimentos podem ser dados como bons, mas quando os insignificamos, a simplicidade nasce trazendo felicidade à luz da esperança.

Shana Horta




[Acho mais importante que qualquer jóia pendente.

Os pequenos invólucros para múmias de passarinhos
que os antigos egípcios faziam
Acho mais importante do que o sarcófago de Tutancâmon.

O homem que deixou a vida por se sentir um esgoto -
Acho mais importante do que uma Usina Nuclear.
Aliás, o cu de uma formiga é também muito mais
importante do que uma Usina Nuclear.

As coisas que não têm dimensões são muito importantes.
Assim, o pássaro tu-you-you é mais importante por seus
pronomes do que por seu tamanho de crescer.

É no ínfimo que eu vejo a exuberância.]

Livro Sobre Nada – Manoel de Barros


Legenda

* Palvras – Chave: concreto – Barro(s) – poética.

Crédito

Imagem by: l8.deviantart.com