domingo, 27 de janeiro de 2008

KRISHNAMURTI




"Diálogo sobre a Dependência de Guias"

por Krishnamurti


Não é importante descobrir-se por que surge a dúvida? Qual é a causa da dúvida? Não surge ela quando seguimos a outrem? O problema não é, pois, a dúvida, porém a causa da aceitação de autoridade. Porque aceitamos, porque seguimos autoridades?
Seguimos a autoridade de outro, a experiência de outro, e depois duvidamos dela. Esse desejo de autoridade e a sua conseqüência, a desilusão, constitui um processo penoso para a maioria de nós. Censuramos ou criticamos a autoridade, o guia, o mestre que uma vez aceitamos, mas não examinamos o nosso próprio anseio por uma autoridade que nos guie e conforte. Uma vez compreendido esse anseio, compreenderemos também o significado da dúvida.
Não existe em nós uma tendência profundamente arraigada a procurarmos um guia, a aceitarmos uma autoridade? De onde procede esse impulso? Não procede de nossa própria incerteza, de nossa própria incapacidade de conhecer sempre o que é verdadeiro? Necessitamos de outrem que desenhe para nós o mapa que nos guiará pelo mar do autoconhecimento; desejamos segurança, desejamos um refúgio seguro e seguimos, por isso, a qualquer que nos queira dirigir. A incerteza e o temor levam-nos a procurar quem nos guie, obrigando-nos à obediência e à veneração da autoridade; a tradição e a educação criam para nós muitos padrões de obediência. Se por vezes não aceitamos nem obedecemos aos símbolos da autoridade exterior, é porque criamos nossa própria autoridade interior, a voz sutil do nosso “ego”. Mas, pela obediência não se pode conhecer a liberdade. A liberdade chega-nos com a compreensão, não pela aceitação de autoridade, não pela imitação.
O desejo de expansão pessoal gera a obediência e a aceitação, as quais, por sua vez, dão azo à dúvida. Consentimos e obedecemos, por que desejamos expandir o nosso “ego”, com o que renunciamos ao pensar. A aceitação priva-nos do pensar e impele-nos à dúvida. A experiência, principalmente a chamada experiência religiosa, oferece-nos um grande deleite e tomamo-la por guia, por norma. Mas, quando essa experiência já nos não sustenta nem inspira, começamos a duvidar dela. Só se manifesta dúvida a respeito de algo que admitimos anteriormente. Mas não achais absurdo, irrefletido, aceitar o que outrem sentiu? Vós é que deveis pensar e sentir, plena e profunda mente, vós é que deveis estar acessíveis ao Real. Não podeis estar abertos se vos pondes sob o manto da autoridade, seja de outrem seja daquela que vós mesmos criastes. Muito mais importante é o compreender o desejo de autoridade, de guia, do que aprovar ou desaprovar a dúvida. Compreendido o nosso desejo de orientação, desaparece a dúvida. Não há lugar para a dúvida no “estado criador”.
Está sempre em conflito quem se apega ao passado, à memória. A dúvida não faz terminar o conflito; só depois de compreender-se o anseio pode haver a felicidade suprema do Real. Cuidado com o homem que afirma saber.

(Do livro: O Egoísmo e o Problema da Paz – ICK - 1945)

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