terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

A Barquinha e a União do Vegetal

Rio Branco, Acre. Vai começar a sessão no centro espírita Daniel Pereira de Mattos. Com roupas de marinheiro, os adeptos tomam a bebida ayahuasca, ou Santo Daime - uma mistura de cipó e folhas nativas da Floresta Amazônica que provoca visões e, segundo a crença, conecta o homem com o divino. Todos cantam os chamados salmos. Músicas que teriam sido inspiradas por guias espirituais, habitantes do além.
A cortina se abre para revelar o altar onde pontifica São Francisco das Chagas, o comandante que pilota a Barquinha, com outros seres divinos.
A bebida provoca o êxtase, e assim começa a viagem da Santa Barquinha, cuja missão seria resgatar as almas dos mortos que sofrem no mundo espiritual e levá-las, pelo mar sagrado do Daime, até os pés de Jesus Cristo, onde está a salvação.
É uma crença cristã, mas também é de umbanda: entidades invisíveis, conhecidas como caboclos, supostamente se manifestam nos médiuns para afastar as forças negativas. Quando as cortinas se fecham, o trabalho na Barquinha está encerrado.
Existe outro centro da Barquinha, às margens do Rio Acre. É o centro espírita Luz, Amor e Caridade. Mestre Juarez, 81 anos é o presidente do centro, um patriarca da floresta.
No dia 29 de junho, começa a celebração da Noite de São Pedro. Dentro da igreja, orações e salmos são entoados. Da igreja, saem todos para o terreiro de umbanda, onde são feitas as chamadas "obras de caridade". Acredita-se que várias entidades espirituais descem ao terreiro para expulsar os espíritos malignos.
O efeito do Daime é chamado de miração.
"A miração pra mim é um deslocamento desta vida para os planos espirituais", define o médium Edson Santos.
O Daime, um agente químico que altera as percepções, seria um aliado na prática da mediunidade - que é o contato do homem com os mortos, ou com os seres encantados do mundo sagrado.
Mestre Juarez assovia, chamando a força do Daime. Ele estaria incorporando um encantado, uma entidade poderosa no universo da Barquinha: o Príncipe Dragão do Mar.
A Barquinha foi criada há 60 anos por Daniel Pereira de Mattos, maranhense que se mudou para o Acre, um boêmio, amigo do copo e do violão. Contam que depois de uma noite de farra e bebedeira, Daniel acordou às margens do Rio Acre e teve uma visão: dois anjos desceram do céu trazendo nas mãos um livro azul. Nesse livro estaria revelada uma nova doutrina cristã. Daniel largou a cachaça, começou a tomar Daime e deu início à missão da Barquinha.
De volta à igreja do Mestre Antonio Geraldo, os fiéis tomam o Daime e se dirigem ao coreto, ao lado da igreja: começa o bailado. Depois que a bebida faz efeito, cada um segue seu estilo de dança, e cada estilo pertence a uma determinada falange de seres espirituais. Acredita-se que algumas destas pessoas estejam incorporadas por espíritos. E são as canções que vão chamando esses espíritos.
A Barquinha é uma das três religiões nascidas no Brasil que usam o chá ayahuasca como bebida sacramental. No episódio anterior mostramos a igreja do Santo Daime, onde os adeptos cantam e bailam a noite inteira.
A União do Vegetal é a maior dessas três religiões em número de seguidores - são em torno de 15 mil. Pela primeira vez, uma equipe de TV foi autorizada a filmar uma sessão da União do Vegetal, em Porto Velho, Rondônia. A bebida sagrada é chamada de "Ayahuasca", ou simplesmente de "vegetal".
Durante todo o ritual os adeptos permanecem sentados, esperando a "borracheira" - como é conhecido o efeito da bebida. O mestre vai de um em um e pergunta: 'Tem borracheira? Tem luz? Como vamos?'. Depois são entoadas as "chamadas", cânticos que transmitem ensinamentos. Quando todos estão sob o efeito do vegetal - em plena "borracheira" - ouvem gravações de MPB. Pode ser Roberto Carlos.
“A borracheira é manifestação da força superior do nosso interior, que bebemos o vegeta. Nós somos o aparelho que recebemos essas forças”, explica Mestre Luiz Cardoso.
Segundo a crença da União do Vegetal, foi um importante personagem bíblico, o Rei Salomão, quem descobriu o vegetal e passou esse conhecimento a um homem chamado Caiano. Séculos depois, Caiano teria nascido de novo na Bahia, com o nome de José Gabriel da Costa. Mestre Gabriel conheceu a Ayauasca nos seringais de Rondônia e fundou a União do Vegetal em 1961.
"A grande lição que Mestre Gabriel deixou para nós é a compreensão de buscar a perfeição divina na nossa consciência, de procurar ser amigo verdadeiro dos outros” diz José Luiz de Oliveira, mestre geral da União do Vegetal.
O governo brasileiro autoriza o uso religioso do vegetal, mas é preciso advertir: ele é um psicoativo potente.
“Em alguns jovens, em algumas pessoas pode produzir certo desequilíbrio e até desencadear quadros mais sérios”, alerta a neuropsiquiatria Paulo Dalgalarrondo.
A União do Vegetal mantém um departamento médico-científico e defende o consumo responsável da Ayauasca, dentro da lei.

Fonte: http://fantastico.globo.com

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