segunda-feira, 13 de julho de 2009

Cultura Matrística

Uma boa reflexão para todos nós..
Tenham um ótimo início de semana!!
Namastê ;)

"Fazer algo pelo outro ou para ele não constitui subordinação ou servidão. É a emoção sob a qual se faz ou se recebe o que é feito que transforma esse fazer numa coisa ou noutra. Os europeus e ocidentais modernos pensam e falam com base na cultura patriarcal a que pertencem. Pensam e falam com base no espaço psíquico patriarcal; e o resultado é que para eles não é fácil ver as outras culturas em seus próprios termos.

Sabemos que o respeito por si mesmo e pelo outro surgem nas relações de aceitação mútua e no encontro corporal, no âmbito de uma confiança mútua e total. Mostramos que o abuso (uso forçado) e a mutilação do corpo de uma pessoa por outra viola essa confiança fundamental. Isso destrói, na pessoa atingida, o respeito por si mesma e sua possibilidade de participar na dinâmica do respeito mútuo, que constitui a coexistência social.

A perda do respeito por si mesmo e pelo outro, envolvida em tais ações, destrói a identidade social e a dignidade individual de um ser humano como aspectos de sua dinâmica biológica. Surge assim uma desolação, que só se pode curar por meio da recuperação do respeito por si mesmo e pelo outro, na mesma ou em outra comunidade humana. A destruição do auto-respeito por meio do abuso corporal resulta na aceitação de uma situação de subordinação por parte de quem é abusado. Contudo, para que ocorra a aceitação da subordinação como relação legítima, tanto pelo abusador quanto por sua vítima, ambos devem viver no espaço psíquico da apropriação.

Afirmamos que tal maneira de viver, em nossa cultura ocidental, surgiu com o patriarcado, no estabelecimento da vida pastoril. Também acreditamos que aquilo que as mulheres aceitaram como condição legítima de convivência - a dominação e o abuso por parte do homem como patriarca - e que passou a ser a principal fonte de servidão e escravidão em nossa cultura, é uma consequência da expansão do espaço psíquico do patriarcado, por meio da apropriação das mulheres patriarcais e não-patriarcais na guerra, e sua subordinação mediante a sexualidade e o trabalho forçados.

Por meio do emocionar da apropriação, o patriarcado criou o espaço psíquico que tornou possível a destruição da colaboração fundamental de homens e mulheres, própria da vida matrística. Também cremos que a servidão e a escravidão da mulher surgiram de fato na expansão do patriarcado, na guerra e na pirataria resultantes do crescimento da população.

O modo como vivemos com nossas crianças é, ao mesmo tempo, a fonte e o fundamento da mudança cultural e o mecanismo que assegura a conservação da cultura que se vive.

Não se ensina às crianças o espaço psíquico de sua cultura - elas se formam nesse espaço.

O patriarcado é um modo de viver um espaço psíquico. Se quisermos recuperar a igualdade colaborativa da relação homem-mulher da vida matrística, temos de gerar um espaço psíquico neomatrístico. Nele as pessoas de ambos os sexos devem surgir na qualidade de colaboradores iguais no viver de fato, sem esforço, como simples resultado de seu crescimento como crianças em tal espaço, no qual as diferenças de sexo são apenas o que são.

Para que isso aconteça, devemos viver à maneira dos homens e mulheres que vivem como colaboradores iguais, por meio de uma co-inspiração na qual homens e mulheres, mulheres e homens, co-participam da criação de uma convivência mutuamente acolhedora e liberadora, que se prolonga desde a infância até a vida adulta."

Fonte:
Humberto Maturana - Gerda Verden-Zöller
Amar e Brincar - Fundamentos esquecidos do humano

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