segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Se eu calar a fêmea…

Se eu calar a fêmea, o que me restará? As palavras certas, mas jamais certeiras e muito bem talhadas feito estátuas mortas? A voz, a voz, a voz que não amolece no canto da boca? A resposta dura, bem feita, insossa? É a fêmea quem fala, quem pulsa, quem ama, é a fêmea em versos tolices sonhos. A fêmea em sexo, vontade, fúria. Fêmea em lamúria. Mas é sempre a fêmea quem grita aqui e desencadeia minhas letras vãs – todas tortas, letras impossíveis de nossas manhãs…

Se eu calar a fêmea, nada mais me resta, a não ser os sinos da igreja antiga e aquela saudade mal pronunciada. Nada dito. Tudo calado cruelmente cortando os verbos. E papéis amarelados gastos pelo tempo. Rotos, sem vida, pobres documentos. Nem um vinho tinto pra contar história, nem a nossa língua perfurando corpos. Nada de serpentes no meu Paraíso…

Se eu calar a fêmea, resta-me um passado. Passado parado duro sem voltas. Tempo mudo estático feito de uma linha. Nada da elipse de meus saltos gritos. Nada da mulher que envenena estrelas…

por Carla Jaia

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