sábado, 29 de outubro de 2011

Upadesa Saram -A Essência da Instrução Espiritual


Existe na Índia uma velha lenda a respeito de um grupo de Rixis (vide glossário no final) que durante certo tempo viveram juntos num bosque, praticando rituais através dos quais adquiriram poderes sobrenaturais. Com base nesses poderes, pretendiam atingir a libertação espiritual. Na realidade, estavam equivocados, pois a ação (rituais) só pode dar como resultado a própria ação e não a sua cessação; os ritos podem despertar poderes, mas não a paz da libertação espiritual que se acha além dos ritos, poderes a todas as formas de atividade. O Deus Shiva ao perceber sua intenção resolveu convencê-los do erro em que incorriam e, para tanto, manifestou-se diante deles sob a forma de um Sadhu Errante (vide glossário). Juntamente com ele apareceu o Deus Vishnu sob a aparência de uma formosa dama. De pronto os Rixis apaixonaram-se pela moça, o que alterou seu equilíbrio, afetando de modo adverso seus ritos e poderes. Além disso, todas as suas esposas que com eles viviam na floresta se enamoraram do estranho Sadhu. Irritados com o fato, os Rixis, mediante ritos mágicos, conjuraram um elefante e um tigre, enviando-os contra o Sadhu. Este, entretanto, matou-os com facilidade e a seguir usou a pele do elefante como vestimenta e a do tigre como manto. Compreenderam os Rixis que se achavam diante de alguém mais poderoso que eles e assim curvaram-se reverentemente, pedindo-lhe para que os instruísse. Assim, Shiva sob a forma de um Sadhu explicou-lhes que não é mediante a ação e sim pela renúncia a ação que se alcança a libertação.
O poeta Muraganar estava escrevendo esta fábula em verso Tamil, mas ao chegar no ponto da instrução dada por Shiva aos Rixis, sentiu-se incapaz de fazê-lo e pediu a Bhagavan, que era Shiva encarnado, para que escrevesse por ele. Atendendo a Muraganar, Bhagavan compôs trinta versos em Tamil expondo a instrução. Este poema é conhecido como Upadesa-Vundiyar. Sri Ramana mais tarde traduziu-o para o sânscrito, Telegu e Malayalam, com o título de Upadesa-saram.
Nos trinta versos que constituem a Upadesa Saram, Sri Ramana dá a quinta essência da Vedanta. O valor extraordinário deste ensinamento é que ele não é o resultado formal do estudo do texto, mas brotou da autoexperiência de Sri Ramana, proporcionando assim, uma independente e contemporânea confirmação da verdade plena da Vedanta.
Estes versos eram cantados diariamente perante Bhagavan Sri Ramana Maharshi, juntamente com os Vedas, e, continuam a ser cantados diariamente perante seu túmulo. Portanto, são tratados como uma Santa Escritura. Referem-se às várias sendas da liberação, graduando-as em ordem de eficiência e excelência, e mostrando que a melhor é a autoinvestigação. Começa com a crítica da falsa visão do karma, o reflexo do curso das ações passadas, como sendo tudo, não havendo necessidade de postular a divindade atrás da cena.
Foram traduzidos para o inglês por Narasimha Swami, e do inglês para o português pelo Grupo Arunachala do Rio de Janeiro. Nós aqui os transcrevemos por ser a própria essência da instrução do Mestre.

1 - A ação (karma) produz frutos, pois assim ordena o Criador mas, é Deus? Não pode ser: pois não é sensível.
Nota: Maharshi usa a palavra karma apenas para significar atos determinados, sancionados ou proibidos pelas escrituras. A doutrina do karma é usada na filosofia hindu para explicar as desigualdades encontradas na sociedade e o espetáculo comum e estranho do homem bom sofrendo dores e tristezas, aparentemente inexplicáveis, enquanto os maus gozam prazeres e felicidade, aparentemente imerecidas. Dentro de limites definidos, serve a doutrina do karma, mas a tentativa de limitar a onipotência de Deus e de apresentar o karma como sendo superior a Deus não é válida. O Maharshi censura essa ilusão: “Karma é um dos estados ou atributos da criatura de Deus, e, consequentemente, karma é criado por Deus. É, pois, ridículo atribuir superioridade da criação em relação ao Criador.”
2 - Os resultados do karma passam, mas deixam sementes que lançam o agente num oceano de ação. A ação, portanto, não oferece libertação.
Nota: Nossos atos e atitudes tornam-se hábitos que prendem o agente com grilhões de ferro. Os atos nascidos do desejo tendem a perpetuar-se não apenas de dia para dia e ano para ano, mas também de vida para vida, pois o balanço de seus frutos, deixando sempre saldo, permanece na morte do corpo físico e nos força a tomar novo nascimento.
3 - Mas os atos executados sem apego e com espírito de serviço a Deus, limpam a mente e apontam o caminho para a libertação.
Nota: No homem estão profundamente arraigados os desejos e tendências para buscar suas recompensas. Por ambas as razões, a atividade e o amor ou o desejo de alguma coisa são inevitáveis, o aspirante deve voltar seu amor para Deus, servindo-O tanto diretamente como através de suas criaturas. O efeito de tal atividade será o da diminuição gradual e finalmente o desaparecimento do egoísmo, conduzindo-nos para Deus.
4 - Isso é certo. “Puja”, “Japa” e “Dhyana” são executados principalmente com o corpo, com a voz e com a mente e sobrepujam-se entre si na ordem acima.
Nota: “Puja” - cerimonial de adoração acompanhado de atividade.
“Japa” - repetição do nome de Deus ou de mantras sagrados.
“Dhyana” - meditação.
5 - Este universo óctuplo pode considerar-se como manifestação de Deus e qualquer culto que nele se cumpra é excelente como adoração a Ele.
Nota: Óctuplo porque está composto pelos cinco elementos mais o sol, a lua e o ser individual. Os devotos fervorosos pensam, e devem pensar, ao executarem tal adoração, que Deus é imponente em todo o universo e em cada parte deste. Para que a adoração seja real, de forma a alcançar Deus, deve haver o sentimento da presença de Deus. A concentração intensa ou absorção assimila e faz a fusão, isto é, mergulha os dois num só. E o objetivo da adoração é mergulhar na Bem-Aventurança única.
6 - A repetição, em voz alta, de Seu Nome ou Mantra é melhor do que o louvor. A seguir vem a pronúncia sussurrada. Melhor ainda é a repetição dentro da mente – e isso é a meditação acima referida.
Nota: A repetição do Seu nome ou mantra auxilia mais a concentração do que prestar louvores. A medida que a concentração aumenta, a voz, gradualmente, mergulha no interior e o silêncio predomina.
7 - Melhor do que a interrupção do pensamento (meditação) é o seu fluxo contínuo, como o fluir do óleo ou da corrente contínua.
8 - A atitude mais elevada “Eu sou Ele” é preferível à atitude “ele é o ego”.
Nota: O som sânscrito que significa “Eu sou Ele” é usado para denotar a unidade e identidade daquilo que é designado pela primeira pessoa Eu e pela terceira Ele. Assim, este é o mantra chave, a meditação constante que auxiliará o devoto a identificar-se com a alma universal ou Brahman.
9 - Permanecer no Ser Real, transcender todos os pensamentos, pela devoção intensa, é a própria essência da devoção suprema.
Nota: Nestes dois versos, o Maharshi mostra como começamos a devoção com o sentimento de diferença entre nós e Deus, depois perdemos a diferença pela intensidade do estado e chegamos a não-diferença. Isto é sabedoria, e é a essência da devoção mais elevada.
10 - “Absorção na fonte”, o “cerne” da existência ou “coração” é o que ensinam os caminhos do Karma (Ação), de Bhakti (Devoção), de Yoga (União) e de Jnana (Sabedoria).
Nota: A mente devocional do Bhakta (devoto) encontra em Deus a fonte exata de si mesma e de todos e esforça-se para ser absorvida completamente n’Ele. O Jnani executa a investigação da fonte e da natureza em si mesmo e de todas as outras coisas do universo. E, chegando ao Supremo, busca realizar-se perdendo sua individualidade n’Aquele. O yogui volta-se para o sadhana (exercício), que capacita a mente a alcançar a firmeza e absorção em Atman – Brahman. O partidário do caminho do karma almeja, também essa absorção e se lança a vários atos que o levam ao alvo. Todos esses caminhos prescrevem a fórmula – “Buscai e descobri a origem de vós mesmos, e sede absorvidos nela.” Este termo – “Fonte” denota a Suprema realidade, Brahman, donde surge a existência de tudo. Para esse termo Maharshi usa a palavra “Hridayam” ou seja Coração.
11 - Como os pássaros são apanhados com redes, assim ao prender a respiração, a mente é retraída e absorvida. A respiração regulada é estratagema para efetuar a absorção.
Nota: Pranayama (controle da respiração) assegura, realmente a calma temporária da mente.
12 - Pois a mente e a respiração vital (prana) expressos em pensamento e ação, divergem e se dividem, porém surgem da mesma raiz.
Nota: O aspirante não deveria contentar-se como o “pranayama” que tranquiliza a mente apenas enquanto a respiração é retida, mas deveria prosseguir até “matá-la”. E isto é conseguido pela perseverança na concentração sobre o Supremo.
13 - A absorção tem duas formas, isto é “Laya” e “Nasha”. O que é absorvido em “Laya” revive, pois “Laya” é absorção temporária; “Nasha” é permanente.
Nota: “Momonasha” isto é, literalmente, a morte da mente, não significa tornar-se insensível, e sim a perda da forma atual da mente, que é limitada com sua visão obstruída e embaraçada, que impede que seja ela percebida como o próprio Atman e força-a a identificar-se com o corpo. A perda dessa forma de mente é realmente uma aquisição, pois significa a transformação da mente finita em consciência pura, o Atman ou Brahman que tudo envolve sem nada deixar fora de si.
14 - Quando a mente for absorvida pelo refreamento da respiração então ela morrerá, isto é, sua forma perecerá, se for fixada num só ponto.
Nota: Este “ponto” é a concentração no Supremo.
15 - O grande Yogui cuja mente está extinta e que descansa em Brahman, não tem karma, pois que atingiu a sua verdadeira natureza, Brahman.
Nota: O sábio que submeteu sua vontade ao Supremo, diz “Eu” não eu, mas o “Supremo em mim”. Ele está seguro e feliz no seu íntimo, todavia, distante do corpo, perfeitamente tranquilo e imune às suas tendências e consequentes atividades – ciente de que ele não é o agente. Tal sábio é considerado como aquele que perdeu seu ego ou mente, e está isento de laços karmicos.
16 - Quando a mente se afasta dos objetos externos dos sentidos se embrenha na introspecção, e contempla Sua própria forma resplandecente, isso é a verdadeira sabedoria.
Nota: Conhecimento não deve ser confundido com sabedoria. Muita instrução é fadiga para o corpo e pode, pela distração, impedir a paz da mente. A instrução é o estudo das coisas fora de nós e o homem pode estudar o mundo todo e até ganhá-lo, mas de que serviria se ele não se conhecer a si mesmo, para poder dirigir-se. Mesmo para adquirir o conhecimento real do mundo deveremos conhecer-nos a nós mesmos. O autoconhecimento é o dever principal e o interesse do homem é a sabedoria.
17 - Quando a mente investiga incessantemente sua própria natureza, descobre que não há mente. Este é o caminho direto para todos.
18 - A mente é apenas pensamentos. O pensamento “eu” é a raiz de todos os outros pensamentos. Portanto, a mente é somente o pensamento “eu”.
Nota: O pensamento “eu” é também conhecido como ego, o sentimento de nossa personalidade. “Pensamentos” significam fenômenos mentais. Quando surge um pensamento, buscai sua raiz perguntando: “A quem surgiu esse pensamento? Quem pensa isto?” A resposta é Eu a pessoa. Não há pensamento sem um pensador. Assim o pensamento-pessoa “eu” é a raiz do pensamento.
19 - Donde surge este ego? Buscai isto no vosso íntimo e esse ego desaparece. Esta é a busca da sabedoria.
Nota: A pergunta seguinte que deverá ser feita a vós mesmos é: “Quem é esse eu?” Que espécie de entidade é ele? Donde surge ele? Pela introspecção, tentai ver como e onde esse pensamento “eu” começa. O resultado é que o que aparecia anteriormente como indivíduo, o distinto “eu”, que entretinha o pensamento, desaparece, não é mais visto.
20 - Onde o ego desaparece, aparece um “Eu”. “Eu” por si mesmo. Este é o infinito.
Nota: Existirá um vácuo em nós após a perda do sentimento de personalidade individual? Não. O que resta é o Uno super sensível, que sustenta essa aparência “Eu”, e representa não apenas um indivíduo, mas todos. Daí ser designado pela expressão “Eu-Eu”, que denota o mergulho ou absorção do indivíduo no Universal. E isso é aniquilamento? Não.
“A gota de orvalho escorrega até o mar brilhante.”
“A pequena fagulha se reúne à chama eterna.”
21 - Este é o verdadeiro valor do termo “Eu”. Pois não cessamos de existir nem no sono profundo, no qual não há “eu” desperto.
Nota: Os Upanishads afirmam que o estado de sono profundo está ainda muito próximo da ignorância – embora esse estado seja o de maior felicidade entre os três (os três estados são o de vigília, o de sono, com sonhos e o sono profundo – sem sonhos) e esteja mais próximo da autorrealização. Na autorrealização tudo é consciência pura, e a ignorância não pode deter-se ali. Maharshi assim resume tal assertiva: “A realidade está oculta atrás do ‘Eu’, isto é, dos três estados, e este ‘Eu’ de consciência pura é perfeito”.
22 - Mente, sentidos, corpo, a respiração vital (prana) e a ignorância, são todos insensíveis e não são o Real. Eu sou o Real. Eu não sou esses envoltórios.
Nota: Se sinto que sou e que sou consciente, o “Eu” não pode ser ignorância ou algo obscuro. Quem sou eu então? Eu sou o que fica depois de serem removidos todos esses envoltórios. Eu sou aquilo que É Sat (Ser, Existência), Eu sou aquilo que é o consciente, Chit (Consciência). Eu sou além de todos os prazeres ou dores, Eu sou Ananda (felicidade).
23 - Como não há um segundo Ser que conheça Isso que existe, “Isso que existe” é consciente. Nós somos Isso.
24 - Criaturas e criador existem. São um no Ser. A diferença está no grau de conhecimento (consciência) e de outros atributos.
25 - Quando a criatura se vê sem atributos, isso é conhecimento do Criador, pois o Criador aparece como idêntico ao Eu.
26 - Conhecer o Eu é ser o Eu, pois não há dois Eu separados. Esse estado é “Thanmaya Nishta” (viver como o Ser).
Nota: “Thanmaya Nishta!” Significa literalmente “Viver como Aquele” isto é, Brahman ou o Ser Real.
27 - Esse é o “Conhecimento” real e transcende tanto conhecimento como ignorância. Lá não existe objeto para ser conhecido.
Nota: No estado de realização a unidade prevalece. A ideia “eu sou isto” ou “sou ignorante disto” não pode entrar ali. Não há segunda pessoa para conhecer essa realização.
28 - Quando se conhece a nossa verdadeira natureza então existe o Ser sem começo nem fim. Esta é a ininterrupta Consciência – Bem-aventurança.
Nota: Nesse estado não há diferenças e daí não haver começo nem fim. O que é realizado então pode ser descrito como existência (Sat), consciência (Chit), felicidade (Ananda).
29 – Permanecer nesse estado de Bem-aventurança suprema e deixar para trás todos os pensamentos que causam escravidão ou libertação é viver a serviço do Supremo.
Nota: Qualquer adoração ou serviço, daí em diante, será sem ego, pois a vontade é absorvida em Deus ou Brahman.
30 – A realização D’Aquele que subsiste quando todos os traços do ego desaparecerem, é bom “tapas”. Assim canta Ramana, o Eu de todos.
Nota: Para o observador superficial o “Jnani” (sábio) pode não parecer um “Tapasvi” (aquele que pratica “tapas” – penitência, disciplinas), mas o fato é que ele é o maior, pois seus “tapas”, sendo a percepção espontânea do Ser, é constante, independente do menor traço de esforço. O processo de nos afastarmos do ego envolve o sacrifício de tudo.

Glossário
BRAHMAN - A divindade (Deus). Apresenta-se sob duplo aspecto Brahman-Nir-Guna, isto é, Deus sem atributos, impessoal (O Absoluto Ser) e Brahman-Saguna, isto é, Deus com atributos ou Deus como pessoa sagrada (O Pai).
SADHU – Asceta que renuncia ao mundo em busca da libertação espiritual.
RIXI – Nome dado a indivíduos que atingiram a realização espiritual. Na lenda em questão os rixis não eram verdadeiros rixis, pois não haviam alcançado o nível espiritual que fizesse jus ao nome.
SHIVA – Aspecto destruidor da Trindade Hindu. Na verdade o aspecto do Divino que destrói a ilusão (Maya) do ser que se identifica com o seu ego.
VISHNU – Aspecto conservador da aludida trindade, na mitologia Hindu.

Fonte: http://www.aluznocaminho.org.br/novo/bhagavan-sri-ramana-maharshi/o-ensinamento/upadesa-saram-essencia-da-instrucao-espiritual

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