quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Hilda permanece(rá)!

10 anos sem Hilda Hilst.
Hilst é uma das escritoras que eu mais admiro. ela é a primeira da lista do meu caderninho - onde carinhosamente eu a chamo de "uma das minhas mulheres", rs. A leitura de seus livros já virou rotina na minha existência. Sou literalmente de quatro por sua linguagem. Sempre pressenti uma enigmática atração em suas palavras marcadas no meu eu. Também ascendentes em capricórnio (uau!). Como uma Hilstina nata, ela sem dúvida é minha fonte literal de inspiração. fui completamente ATIGINDA.
Hilda permanece(rá) sempre em mim!

S.H.

[É triste explicar um poema. É inútil também. Um poema não se explica. É como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida. Um soco certamente te acorda e, se for em cheio, faz cair tua máscara, essa frívola, repugnante, empolada máscara que tentamos manter para atrair ou assustar. Se pelo menos um amante da poesia foi atingido e levantou de cara limpa depois de ler minhas esbraseadas evidências líricas, escreva, apenas isso: fui atingido. E aí sim vou beber, porque há de ser festa aquilo que na Terra me pareceu exílio: o ofício de Poeta.]

-Hilda Hilst em “Cascos & Carícias & Outras Crônicas”.



 

Perfil: Hilda Hilst

NUNCA HOUVE UMA MULHER COMO HILDA

Por Juarez Guimarães Dias

*Colunista convidado que assina a Escrita em Progresso

Hilda de Almeida Prado Hilst, Hilda Hilst, HH, Obscena Senhora H, Senhora H, natural de Jaú (SP), nasceu em 21 de abril de 1930 e faleceu em 4 de fevereiro de 2004. Profissão: Escritora, ou Poeta como preferia. Seu nome, para a tribo germânica dos Teutões, é Grande Batalha; para a numerologia sua Alma é a da essência, do eu verdadeiro, do de dentro, da razão pela qual está entre as gentes. Na Aparência é pensadora, mística, filósofa, criadora e artista e seu Destino foi atuar de forma perspicaz, trabalhando duro para conseguir realizar seu Projeto. Sol em Touro (estabilidade, lealdade, persistência), Ascendente em Capricórnio (realização, senso de humor), Meio céu em Libra (altruísmo, companheirismo), Sol Trígono Netuno (sensibilidade e espiritualidade), Lua em Aquário (liberdade), Mercúrio na Casa 4 (paixão pelos livros e conhecimento), Vênus em Touro (calor e afeto). De sua mãe, Bedecilda, herdou a beleza, a sedução e o carisma; do pai, Apolônio, diagnosticado esquizofrênico aos 35 anos de idade, o intelecto e a poesia.
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A pequena menina miúda, magra e de tranças, queria ser santa e entregar sua vida a Jesus, nos anos em que viveu interna no Colégio Santa Marcelina. Desde tenra idade, tinha preocupações incomuns como o desvendamento dos mistérios da Igreja Católica (a virgindade de Maria, a ascensão, os milagres e a santidade) e a explicação para a morte dos seres vivos. Angustiava-se de pensar que tudo um dia se acaba, já que amava viver, encantava-se com a natureza e os animais e acreditava na potência do ser humano, sua mente e seu espírito. Gastava horas inúteis examinando o mundo, os insetos, os bichos menores, contemplava as árvores e as plantas. Era observadora e curiosa, uma fome e sede de conhecer e absorver o que encontrava, o mundo era grande demais para dar conta dele e, mesmo quando se assustava, queria saber o porquê. O afã pelo conhecimento e sabedoria levava-a estudar as palavras, chegava a decorar páginas e páginas dos dicionários.
Ainda que guardasse em suas entranhas a gravidade da meditação e da reflexão, a jovem Hilda era dotada de grande senso de humor e ironia. Levava os amigos frequentemente às gargalhadas com suas histórias mirabolantes e fantasiosas, e havia todo o mistério sobre o pai, de quem recebia recados através de um tio ou mesmo da mãe que, vez ou outra, visitava-o na Fazenda ou Hospital, onde quer que estivesse. Entretanto, foi somente num encontro frente a frente, depois de muitos anos, que a imagem do Pai Louco se imortalizou. Confundindo-a (?) com a mãe, pediu-lhe insistentemente três noites de amor, que a perturbou profundamente. Entretanto foi mesmo por amor que decidiu ser escritora para realizar a obra que, impossibilitado pela tragédia de sua mente, seu pai não pudera fazer.
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Moderna e sociável, Hilda vivia cercada de amigos por todos os lados e muitos admiradores se aproximavam, as amigas se inspiravam enquanto outras jovens a desprezavam. Como podia ser bonita, rica, inteligente, culta, sedutora, delicada, atraente, bem-humorada e carismática? Divertia-se com as festas, os passeios nos clubes ou em carros conversíveis, procurando nos rostos que encontrava os traços do Bem-Amado-Pai, enquanto lia e escrevia os primeiros versos e poemas. Contrariando a loucura do Pai, entregava-se cada vez mais ao conhecimento e foi estudar Direito, curso respeitadíssimo, num tempo em que era uma das primeiras mulheres a entrar para o reduto. Não bastasse morar sozinha na Casa da Teixeira de Souza, que a mãe comprara, encontrou uma companheira nessa emancipação: Lygia Fagundes Telles, sua amiga escritora que também ocupava seu lugar nessa roda de homens. Do impulso amoroso paterno, o amor para ela passou a ser a única coisa a ser vivida, queria viver unicamente em função da paixão, como uma corda esticada prestes a se romper. Foram inúmeros amantes, milionários excêntricos, playboys, artistas, de quem ganhava presentes como joias, jantares, viagens, roupas de grife e até uma Mercedes Benz. Era uma vida intensa na alta sociedade paulistana, de prazeres e futilidades. Mas no fundo sentida uma fome inexplicável, que a atormentava. Então, um livro mudou radicalmente sua vida.
“Testamento para El Greco”, do escritor e filósofo grego Nikos Kazantzakis (1883-1957) e traduzido por Clarice Lispector, impeliu Hilda Hilst (1930-2004) a deixar sua vida confortável, de prazeres e amantes em São Paulo e construir sua Casa do Sol nas terras da Fazenda São José, de propriedade da sua mãe. Para ela, que na época da leitura contava com 30 e poucos anos, o livro foi como um “chamamento”, pois é notável o quanto se identificou com Kazantzakis, reconhecendo seu rosto no rosto dele, na pulsão de vida pela escrita e nas perguntas que os tanto angustiavam, para as quais buscavam respostas. Para isso era preciso Tempo para ler, pensar e escrever.
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Contudo, não tinha a perspectiva do isolamento total, ao contrário: Hilda Hilst gostava de estar com as pessoas, interessava-se particularmente por todas que vinham à Casa e convidava os amigos a morarem consigo e seu companheiro, o escultor Dante Casarini. Ela queria estar em contato com o Outro, trocar, dividir. O Projeto da Casa, que ela mesma concebeu, tem a iluminação do “Testamento”: estilo conventual colonial, com um pátio interno a céu aberto, e envolta por um jardim exótico onde mora uma Figueira mágica centenária (símbolo da sabedoria), o silêncio propício para a concentração, salvo pelos cães e pássaros que nela vivem. Generosa, oferecia auxílio a quem precisasse, cuidava dos empregados e dos amigos e colocava-os em primeiro lugar; era também despojada, tomando o dinheiro sempre como meio e nunca como fim.
Na Casa do Sol, construiu uma obra de aproximadamente 40 títulos, que a alçaram ao panteão dos grandes escritores de língua portuguesa. Sua paixão pela palavra levou-a a um conhecimento profundo e de experimentações, ampliando a linguagem, e partia do que vivia e convivia para traduzir em poesia, em ficção, teatro, crônicas, no encontro com o outro, seu leitor. Era uma mulher de rara sensibilidade, uma grande intelectual e uma escritora brilhante, que buscou respostas para perguntas para perguntas difíceis como o sentido da vida, a morte, a existência de Deus. Tinha grande senso de humor, falava tudo o que pensava (doesse a quem doesse) e gostava de assistir telenovelas à noite enquanto tomava seu uísque, depois do dia intenso de trabalho.
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Foi tachada de obscena e pornógrafa, depois que publicou livros eróticos nos anos 1990 com o intuito de agradar os editores e vender mais livros. Queria ser lida e reconhecida em vida e sonhava em ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, o que não se concretizou. Entretanto, sua obra tem sido cada vez mais lida, estudada e comentada, principalmente pelo público leitor jovem, que encontra em seu trabalho a beleza e a transgressão da linguagem poética, e traduzida para diversos países da Europa e Estado Unidos. Há dez anos, ela não está mais entre nós, talvez em Marduk, planeta para onde ela acreditava que iam os grandes gênios da humanidade, como Einstein. De qualquer forma, vive imortal na Casa do Sol, transformada em sede do Instituto Hilda Hilst, que preserva sua memória, e no trabalho que desenvolveu seriamente durante décadas: “Quem és? Perguntei ao desejo. Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.”

Fonte: http://www.literar.com.br/perfil-hilda-hilst/

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