terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

OS AMANTES

"O abraço" por Egon Schiele, (1917)


Tradução de José Jeronymo Rivera

 Quem os vê andar pela cidade
 se todos estão cegos?
 Eles se tomam as mãos: algo fala
 entre seus dedos, línguas doces
 lambem a úmida palma, correm pelas falanges,
 e acima a noite está cheia de olhos.

 São os amantes, sua ilha flutua à deriva
 rumo a mortes na relva, rumo a portos
 que se abrem nos lençóis.
 Tudo se desordena por entre eles,
 tudo encontra seu signo escamoteado;
 porém eles nem mesmo sabem
 que enquanto rodam em sua amarga arena
 há uma pausa na criação do nada
 o tigre é um jardim que brinca.

 Amanhece nos caminhões de lixo,
 começam a sair os cegos,
 o ministério abre suas portas.
 Os amantes cansados se fitam e se tocam
 uma vez mais antes de haurir o dia.

 Já estão vestidos, já se vão pela rua.
 E só então,
 quando estão mortos, quando estão vestidos,
 é que a cidade os recupera hipócrita
 e lhes impõe os seus deveres quotidianos.

[Julio Cortázar]

Nenhum comentário: